Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Roubo


- Vai aonde?
- E...Eu...

Seus olhos procuravam inquietamente por uma resposta. Sua respiração ofegante e a vergonha o fez perceber que ele estava muito velho pra isso.

Vou sair. E fechou a porta triunfante e um pouco decepcionado com a falta de interesse que Sônia, fofoqueira de plantão, demostrou à sua resposta vaga.

A verdade é que estava indo a uma festa à fantasia, não pela festa, pela fantasia. Tinha noção de que aquele tapa olho no seu bolso parecia piada perto da habilidade daquelas pessoas em tornar uma fantasia de ketchup em algo maneiro, mas não importava. Hoje se sentia um pirata, e isso bastava.

Talvez ainda não soubesse, mas não era um pirata à toa. Tinha o desejo de saquear. Mal sabia ele que sua mente malévola planejava à dias e que sua vontade, seu desejo, justificavam o roubo. Acho que no limiar de sua auto explicação louca, pensava que alguém que lhe tirava o sono desta forma não podia estar dormindo. Como se o provocasse à distancia, em silêncio.

A desejava ha anos, mas não anos corridos. Quando estava solteiro, atiçava, provocava. Namorava outra, beijou ela. Ela beijou ele e namorou outro. Ela provocava, ele respondia. Ele forçava, ela arredia. Ela terminou, ele namorava. Ele a beijou de novo e estava solteiro. Ela voltou atrás, mas não fugiu do beijo. Ela emergiu em culpa e ficou quieta, ele cansou e fingiu que não via. Por um tempo não se falaram.

A confusão já não era mais cronológica na cabeça dele, não sabia mais o que veio antes ou depois. E mesmo nunca sozinhos, sentia que ele e ela eram os únicos protagonistas nesse emaranhado de trama superpopulada. Apenas a desejava. E hoje saiu de casa um pirata. Desejando saquear algo que não lhe pertencia.

Pensou em mil falas. Mas o barulho dos pingos grossos batendo no guarda chuva embaralhava tudo. Não conseguia pensar, não planejou o saque.

Chegou na festa e encontrou ela vestida de noiva. Grávida de mentirinha.

- Noiva? Grávida? Hahaha...
- É... Um pouco de drama. Quem melhor pra ser roubada?


Ele botou o tapa olho para saírem à francesa. A chuva, agora pesada, encharcou-os instantaneamente causando risos frouxos. Pensava mais claro do que nunca. Atravessaram a rua e terminaram ali. Um pirata francês e uma noiva grávida, ensopados em uma loja de chocolates caros.

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