Eu era capaz, sabia que
era capaz. Essa vida de ser sozinho não me pertencia, a mim nada pertence, mas
eu sabia que seria capaz de ser feliz, de me encontrar, de deixar essa solidão
de não pertencer para trás. Eu sentia ter em minhas mãos todo o sentimento do
mundo, um presente que eu não tinha a quem dar.
Sabe, eu tentei viver nesse mundo, me adaptei aos
conformes exigidos. Tinha minha rotina: A voz do locutor de rádio me acorda às
6h15 da manhã, todos os dias, me levanto devagar, procuro meus óculos, preciso
deles para me olhar nesse espelho que parece me desnudar. Lavo o rosto, me
olho, todos os dias reparo em como minha narina esquerda estraga a simetria do
meu rosto, em como meus lábios finos desejam desesperados. Escovar os dentes me
toma pelo menos cinco minutos, tento seguir o conselho do meu dentista,
estranho como essa pessoa se tornou uma referência e estranho como cinco
minutos parecem uma eternidade. Eu não abro mão do meu café da manhã, mas aprendi a
torná-lo mais prático ao longo dos anos. No fundo é isso que a vida me ensinou:
a ser prático. Enquanto meu pão pré-assado assa, minha cafeteira passa meu café
e eu me visto, porém a imagem refletida me mostra o quanto este traje não me
pertence.
7h15 eu saio de casa, entro no meu carro, um desses
compactos econômicos com feição de esportivo. Preto, é claro. Pelo menos meu
carro pertencia ao trânsito, aqueles 40 minutos para percorrer 4 km.
Todos os dias eu chego cinco minutos antes do horário que
deveria começar a trabalhar, só para poder sentir que esses mesmos cinco
minutos me pertenciam, ilusão de todas as manhãs.
Ouvi dizer uma vez que desde o útero já sentimos o
ambiente ao redor, por motivos que aqui não importam, eu não queria sentir esse
mundo, esse escritório em que eu passo pelo menos dez horas de cada dia meu,
com seu cheiro de carpete escovado, café mal passado, papel picado e ganância.
Já passa da hora da janta quando entro no meu carro
novamente, cozinhar não é uma opção, não é prático, então passo na lanchonete
na esquina de casa e depois volto para o meu apartamento, para os 20 minutos
que vão me pertencer. Sentir a água escorrendo pelo meu corpo e com ela levando
o sentimento de mundo daquele dia, porém a minha imagem nu me surpreende: esse
corpo não me pertence.
Antes de dormir eu entrego minha mente a esses programas
idiotas que passam na televisão e meia noite me parece um bom horário para
entregá-la ao sono.
No dia seguinte tudo igual: o rádio, os óculos, meu
rosto, meus dentes, meu pão, meu traje, meu café, meu carro, o trânsito, meus
minutos, o escritório, a ganância, meu carro, meu lanche, meu banho, minha
alienação, meu sono.
Até que um dia eu resolvi me desnudar desse mundo, para deixar
de me sentir com se fosse um Frankenstein perdido num shopping (aliás, eu odeio
shoppings). Resolvi sair mais cedo do escritório e passar o pôr do sol no banco
daquele parque, porque eu era capaz, sabia que eu era capaz. E a cada dia ele
me surpreendia, me sugeria uma certa felicidade, solitária porém, que chegava a
ser patética, mas me pertencia.
Num desses dias o pôr do sol foi acompanhado por um
vestido florido, um olhar profundo, um sorriso tímido e uma covinha
assimétrica. Comecei a sentir que talvez eu tenha subestimado esse mundo.
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