Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O pertence

Eu era capaz, sabia que era capaz. Essa vida de ser sozinho não me pertencia, a mim nada pertence, mas eu sabia que seria capaz de ser feliz, de me encontrar, de deixar essa solidão de não pertencer para trás. Eu sentia ter em minhas mãos todo o sentimento do mundo, um presente que eu não tinha a quem dar.

            Sabe, eu tentei viver nesse mundo, me adaptei aos conformes exigidos. Tinha minha rotina: A voz do locutor de rádio me acorda às 6h15 da manhã, todos os dias, me levanto devagar, procuro meus óculos, preciso deles para me olhar nesse espelho que parece me desnudar. Lavo o rosto, me olho, todos os dias reparo em como minha narina esquerda estraga a simetria do meu rosto, em como meus lábios finos desejam desesperados. Escovar os dentes me toma pelo menos cinco minutos, tento seguir o conselho do meu dentista, estranho como essa pessoa se tornou uma referência e estranho como cinco minutos parecem uma eternidade. Eu não abro mão do meu café da manhã, mas aprendi a torná-lo mais prático ao longo dos anos. No fundo é isso que a vida me ensinou: a ser prático. Enquanto meu pão pré-assado assa, minha cafeteira passa meu café e eu me visto, porém a imagem refletida me mostra o quanto este traje não me pertence.

            7h15 eu saio de casa, entro no meu carro, um desses compactos econômicos com feição de esportivo. Preto, é claro. Pelo menos meu carro pertencia ao trânsito, aqueles 40 minutos para percorrer 4 km.
            Todos os dias eu chego cinco minutos antes do horário que deveria começar a trabalhar, só para poder sentir que esses mesmos cinco minutos me pertenciam, ilusão de todas as manhãs.

            Ouvi dizer uma vez que desde o útero já sentimos o ambiente ao redor, por motivos que aqui não importam, eu não queria sentir esse mundo, esse escritório em que eu passo pelo menos dez horas de cada dia meu, com seu cheiro de carpete escovado, café mal passado, papel picado e ganância.

            Já passa da hora da janta quando entro no meu carro novamente, cozinhar não é uma opção, não é prático, então passo na lanchonete na esquina de casa e depois volto para o meu apartamento, para os 20 minutos que vão me pertencer. Sentir a água escorrendo pelo meu corpo e com ela levando o sentimento de mundo daquele dia, porém a minha imagem nu me surpreende: esse corpo não me pertence.

            Antes de dormir eu entrego minha mente a esses programas idiotas que passam na televisão e meia noite me parece um bom horário para entregá-la ao sono.

            No dia seguinte tudo igual: o rádio, os óculos, meu rosto, meus dentes, meu pão, meu traje, meu café, meu carro, o trânsito, meus minutos, o escritório, a ganância, meu carro, meu lanche, meu banho, minha alienação, meu sono.

            Até que um dia eu resolvi me desnudar desse mundo, para deixar de me sentir com se fosse um Frankenstein perdido num shopping (aliás, eu odeio shoppings). Resolvi sair mais cedo do escritório e passar o pôr do sol no banco daquele parque, porque eu era capaz, sabia que eu era capaz. E a cada dia ele me surpreendia, me sugeria uma certa felicidade, solitária porém, que chegava a ser patética, mas me pertencia.


            Num desses dias o pôr do sol foi acompanhado por um vestido florido, um olhar profundo, um sorriso tímido e uma covinha assimétrica. Comecei a sentir que talvez eu tenha subestimado esse mundo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário