Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sharmuta

Ele era legal, gostava de pimenta, votou no PT, mas escondia, tinha a destreza de tirar as meias sem usar as mãos e de abrir a porta com o cotovelo. Virava doses antes de ir pro serviço. É paradoxo um gauche ter destreza. Conheceu a garota e disse que era animador de festas. Era uma piada, uma brincadeira, um trabalho temporário desses que duram uma vida inteira. Fácil demais e bem pago o suficiente. Virava doses antes de ir. Ela disse que ia ter uma festa, convidou-o como animador e amigo, não teria cachê nem nada, só se ele quisesse, se achasse que dava. Ele nunca soube dizer não pra garotas. Apaixonou-se por ela, claro, como sempre. Ahh, paixões instantâneas, das tantas coisas que têm cheiro melhor que o gosto. Virava shots antes. O mal entendido, pessoas constrangidas, um rosto ruborizado, as roupas abandonadas no chão, pedidos de desculpa, o grito-riso-fungada daquela moça, a culpada, desvirtuada. Louca, se quiser chamar assim. Foi como ele a chamou pra explicar o caso. A barulheira da música que alguém desligou. A procura pelo culpado e a delícia maldosa da certeza que não fui eu quem cometeu o erro. A imensa, desoladora, arrebatadora culpa de quem pagou pra alguém tirar a roupa na frente de tantos cegos. Um mal estar na civilização. Um corpo que cai, que deforma e se transforma e descamba pro bizarro, pro inaceitável, pro grotesco. E pra vergonha. E num pedido de desculpas singelo, uma memória a ser pra sempre motivo de embaraço numa mente já há muito se escondente. Virava doses. E odiou cada pessoa que olhou pro seu corpo com horror, do mesmo jeito que ele se via quando parava na porta, um minuto de preparação e se punha a se dispor de suas roupas. À barulheira da música do auto falante portátil. E dançava a coreografia das putas, e sabia que ia acelerar o coração de alguém de medo, culpa, tesão, susto, sujeira, de tão perto que ficava. Dessa vez, o coração acelerado foi o seu. Saiu fugido de véus, páginas sagradas, o riso louco da moça desvirtuada e gritos de sharmuta. Virava.



E a proposta dada pelo Eduardo era: "Um stripper masculino que acidentalmente foi contratado para uma festa muçulmana."

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