Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O Vazio

“Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparato de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente tocamos rock’n roll.

“Procuramos satisfazer com o que temos a oferecer. Não são palcos, equalizadores, efeitos especiais que vão nos fazer lendas, e sim fazer música de verdade. Transformar sensações, sentimentos, fases, acontecimentos em letras e essas letras em lenda”.

Última frase daquela entrevista irritante, igual a todas. Curiosidades inúteis, respostas vazias. Ao sair do estúdio não se despediu dos companheiros da banda. Já não conversavam há algum tempo. Ego, dinheiro, fama. Isso era o importante para todos eles. E há quem pense que para ser um cantor você não precisa saber atuar.

Entrou em seu carro de última geração. Chegou a sua mansão. Vazio. Sempre vazio. Correu atrás de seus sonhos, atingiu seus objetivos. Por que isso não é suficiente? Nunca é suficiente.

Tentou tudo que o dinheiro pode comprar. O que melhor?, podia pensar às vezes. Sexo. Drogas. Rock’n roll. Vazio, sempre vazio.

Tentou então colocar seus sentimentos em suas músicas, mas não foram bem aceitas. Muito sombrias, eles disseram. Nem sabiam que esse era ele. Simplesmente ele. Então fez o que pediram, escreveu sobre o que queriam, ganhou mais dinheiro, mais fama. Vazio, sempre vazio.

Tentou ajudar as pessoas. Algo para ocupar sua cabeça. Organizou eventos, participou de conferências, visitou países pobres. Chegou a pensar que isso era algo substancial em sua vida. Já que não podia ser mudada, porque não tentar mudar a dos outros?

Abriu o jornal, viu uma foto sua ao lado de crianças desnutridas, passou o olho pela matéria e algo o fez parar:

“Essa mudança é uma visão tacanha da formação de um diplomata.”

Nada era suficiente. Nunca foi. Nem para ele, nem para os outros. Em seu quarto decidiu abraçar o vazio. Sentiu o frio do cano em sua cabeça, não pensava em nada. Não sentia nada. Nada.


Gatilho. Vazio, sempre vazio.

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