Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

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“Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparto de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente tocamos Rock’n Roll”. Rodrigo ensaiava novamente para uma entrevista imaginária enquanto rotineiramente abria a torneira e colocava a pasta em sua escova de dente. Lavou o rosto e olhou-se, deu então aquele sorriso de despedida para finalizar a entrevista com seu espelho.

            Era 1998 e apesar dos inúmeros depoimentos para o espelho, Rodrigo nem mesmo participava de uma banda. Ao longo dos seus anos de colégio se preparou de todas as maneiras que acreditava serem necessárias para ser membro de uma banda de Rock. Começou com as coleções de CDs e camisetas, se aprofundou no conhecimento das principais bandas que queria ter como referência.

            A decisão de qual instrumento seria o seu não foi fácil. Queria se destacar, ser diferente, ser único, descartou de primeira o instrumento mais óbvio. Partiu então para a jornada de ser um baterista. Conseguiu convencer sua mãe a lhe dar uma bateria de aniversário, mas o sonho infelizmente não durou muito. Depois de 3 meses de muita paciência, por parte dos outros moradores da casa, é claro, Rodrigo perdeu sua bateria para o que sua mãe chamou de “silêncio harmônico”.

            99 estava quase chegando ao fim, Rodrigo, com o dinheiro que juntou durante o último ano, comprou um baixo. Tentou explorar e compreender aquelas cordas e suas combinações, mas passado algum tempo Rodrigo percebeu que seu som não cumpria uma de suas principais funções: a ligação entre outros instrumentos. Ao final do ano 2000 ele ainda não tinha se encontrado em nenhuma banda. Acontece que Rodrigo temia mais do que tudo o risco do erro. Depois de todos esses anos não havia conseguido se entregar verdadeiramente e se arriscar a procurar um grupo. Trocou o baixo pela guitarra. Tocava horas, ocupava o seu tempo só, acompanhado pelo seu som.

            Em 2005 se formou em física, o baixo e a guitarra enfeitavam a parede da sala no apartamento em que morava sozinho. Um violão artesanal lhe fazia companhia, passara do rock para o violão clássico. Seus acordes se manifestavam como o mais puro sentimento que guardava para si.


            E num desses dias de calor melancólico no verão de 2012, Rodrigo tocava na varanda, como se quisesse tocar para a cidade, sem precisar encarar seu medo de se arriscar. Parou no meio da música: “que estúpido que eu sou” pensou. Entrou, ligou a TV como se esperasse uma resposta de quem aparecesse na tela. “Essa mudança é mais uma visão tacanha da formação de um diplomata” foi sua resposta. Desligou a TV, foi dormir. Se apenas ele soubesse das lágrimas que fez derramar alguns andares abaixo...

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