“Nós
não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparto de palco se
resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente
tocamos Rock’n Roll”. Rodrigo ensaiava novamente para uma entrevista imaginária
enquanto rotineiramente abria a torneira e colocava a pasta em sua escova de
dente. Lavou o rosto e olhou-se, deu então aquele sorriso de despedida para
finalizar a entrevista com seu espelho.
Era 1998 e apesar dos inúmeros depoimentos para o
espelho, Rodrigo nem mesmo participava de uma banda. Ao longo dos seus anos de
colégio se preparou de todas as maneiras que acreditava serem necessárias para
ser membro de uma banda de Rock. Começou com as coleções de CDs e camisetas, se
aprofundou no conhecimento das principais bandas que queria ter como
referência.
A decisão de qual instrumento seria o seu não foi fácil.
Queria se destacar, ser diferente, ser único, descartou de primeira o
instrumento mais óbvio. Partiu então para a jornada de ser um baterista.
Conseguiu convencer sua mãe a lhe dar uma bateria de aniversário, mas o sonho
infelizmente não durou muito. Depois de 3 meses de muita paciência, por parte
dos outros moradores da casa, é claro, Rodrigo perdeu sua bateria para o que
sua mãe chamou de “silêncio harmônico”.
99 estava quase chegando ao fim, Rodrigo, com o dinheiro
que juntou durante o último ano, comprou um baixo. Tentou explorar e
compreender aquelas cordas e suas combinações, mas passado algum tempo Rodrigo
percebeu que seu som não cumpria uma de suas principais funções: a ligação
entre outros instrumentos. Ao final do ano 2000 ele ainda não tinha se
encontrado em nenhuma banda. Acontece que Rodrigo temia mais do que tudo o
risco do erro. Depois de todos esses anos não havia conseguido se entregar
verdadeiramente e se arriscar a procurar um grupo. Trocou o baixo pela
guitarra. Tocava horas, ocupava o seu tempo só, acompanhado pelo seu som.
Em
2005 se formou em física, o baixo e a guitarra enfeitavam a parede da sala no
apartamento em que morava sozinho. Um violão artesanal lhe fazia companhia,
passara do rock para o violão clássico. Seus acordes se manifestavam como o
mais puro sentimento que guardava para si.
E num desses dias de calor melancólico no verão de 2012,
Rodrigo tocava na varanda, como se quisesse tocar para a cidade, sem precisar
encarar seu medo de se arriscar. Parou no meio da música: “que estúpido que eu
sou” pensou. Entrou, ligou a TV como se esperasse uma resposta de quem
aparecesse na tela. “Essa mudança é mais uma visão tacanha da formação de um diplomata”
foi sua resposta. Desligou a TV, foi dormir. Se apenas ele soubesse das
lágrimas que fez derramar alguns andares abaixo...
Nenhum comentário:
Postar um comentário