Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

terça-feira, 18 de março de 2014

Estranha forma de amar

Estranha forma de amar. Amanhecia o dia, uma bailarina deitada no chão, abraçada a um palhaço e um pirata. Era o prédio mais alto da cidade. Em sua memória sempre permaneceria aquele lindo céu, avermelhado, brilhante.

Carina amava, e de fato amava os dois. Achava Roberto charmoso, com aquele jeito de sexy nerd, sempre com piadas inteligentes. Mas não conseguia tirar Carlos de sua cabeça também, aquele bobalhão com o sorriso mais bonito que ela já tinha visto.

Encontrou Roberto primeiro, típico namorado de colegial. Amigo de amigos, saíram para um encontro, restaurante italiano. Beijo na porta de casa, próximo encontro marcado, mensagem antes de se deitar. Apaixonou-se de primeira, príncipe encantado que sempre sonhou. Achava que ele a completaria. A completou. Até que...

Festa com amigas, noite de bebidas, balada na cidade. Entre músicas e doses de tequila, cruzou olhares com ele. Seu nome era Carlos, viria a saber em breve. Sentiu o mais profundo tesão por ele naquele momento. Segurou seu copo, olhando-o, virou o que restava. A próxima dança seria dele, caminhou até lá. O beijo surgiu rápido, a foda também, banheiro do clube. Mas foi maravilhosa, ela nunca tinha experimentado um desejo como aquele.

Foi sincera desde o inicio, mentir nunca foi a sua, sempre fazia tudo complicado no final. Roberto ficou arrasado, sem resposta ou telefonema por duas semanas. Carlos continuou da mesma forma, a fazendo sorrir e se sentir desejada. Mas a felicidade não estava completa. Era como se Roberto fosse o que a prendia ao chão, o que mostrava que o mundo real podia também ser maravilhoso. Sentia-se perdida sem ele.

Então ele atendeu sua ligação, concordou em se encontrar. Se encontraram, conversaram, concordaram. Ele também estava apaixonado. A queria. Às vezes abrir mão faz parte do jogo.

Festa a fantasia. Momento ideal? Talvez não, mas Carina estava cansada de planejar demais, decidiu deixar acontecer. Roberto era o pirata, seu jeito serio caiu perfeitamente, na medida certa com sua fantasia. Estava incrivelmente sexy, o homem que qualquer mulher sonharia. Carlos, claro, palhaço. Seu palhaço.  Ela? Uma linda bailarina, pura e sensual, uma mistura que sempre a trouxe a problemas no final.

Momento desconfortável, ciúmes de ambas as partes. Mas decidiram aceitar o desafio, fácil não seria. Era diferente, mas ambos a amavam, e ela precisava dos dois, cada um com uma parte de seu coração.
Decidiram subir ao topo do prédio onde a festa foi dada. Ela precisava de espaço para lidar com aquilo. Nunca se esqueceria daquele momento. Silêncio, ambos em seus braços. Felicidade completa. Não havia um só problema em sua mente. Tudo era limpo, como aquele céu alaranjado, como aquele dia que estava surgindo.

No final não deu certo, Roberto sentia muito ciúmes, queria ela inteira para ele. A largou, se casou em 6 meses com uma amiga de sua irmã. Carina sabia que não conseguiria manter Carlos, ele tinha uma mente muito aventureira, no fundo ela precisava de um chão. Terminaram. Carlos foi viver seu sonho sul-americano. Nunca mais ouviu falar dele.


Agora, olhando para a xicara de chá em sua mão, ela enfim percebe que nem tudo o tempo consegue curar.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O Roubo


- Vai aonde?
- E...Eu...

Seus olhos procuravam inquietamente por uma resposta. Sua respiração ofegante e a vergonha o fez perceber que ele estava muito velho pra isso.

Vou sair. E fechou a porta triunfante e um pouco decepcionado com a falta de interesse que Sônia, fofoqueira de plantão, demostrou à sua resposta vaga.

A verdade é que estava indo a uma festa à fantasia, não pela festa, pela fantasia. Tinha noção de que aquele tapa olho no seu bolso parecia piada perto da habilidade daquelas pessoas em tornar uma fantasia de ketchup em algo maneiro, mas não importava. Hoje se sentia um pirata, e isso bastava.

Talvez ainda não soubesse, mas não era um pirata à toa. Tinha o desejo de saquear. Mal sabia ele que sua mente malévola planejava à dias e que sua vontade, seu desejo, justificavam o roubo. Acho que no limiar de sua auto explicação louca, pensava que alguém que lhe tirava o sono desta forma não podia estar dormindo. Como se o provocasse à distancia, em silêncio.

A desejava ha anos, mas não anos corridos. Quando estava solteiro, atiçava, provocava. Namorava outra, beijou ela. Ela beijou ele e namorou outro. Ela provocava, ele respondia. Ele forçava, ela arredia. Ela terminou, ele namorava. Ele a beijou de novo e estava solteiro. Ela voltou atrás, mas não fugiu do beijo. Ela emergiu em culpa e ficou quieta, ele cansou e fingiu que não via. Por um tempo não se falaram.

A confusão já não era mais cronológica na cabeça dele, não sabia mais o que veio antes ou depois. E mesmo nunca sozinhos, sentia que ele e ela eram os únicos protagonistas nesse emaranhado de trama superpopulada. Apenas a desejava. E hoje saiu de casa um pirata. Desejando saquear algo que não lhe pertencia.

Pensou em mil falas. Mas o barulho dos pingos grossos batendo no guarda chuva embaralhava tudo. Não conseguia pensar, não planejou o saque.

Chegou na festa e encontrou ela vestida de noiva. Grávida de mentirinha.

- Noiva? Grávida? Hahaha...
- É... Um pouco de drama. Quem melhor pra ser roubada?


Ele botou o tapa olho para saírem à francesa. A chuva, agora pesada, encharcou-os instantaneamente causando risos frouxos. Pensava mais claro do que nunca. Atravessaram a rua e terminaram ali. Um pirata francês e uma noiva grávida, ensopados em uma loja de chocolates caros.

O pertence

Eu era capaz, sabia que era capaz. Essa vida de ser sozinho não me pertencia, a mim nada pertence, mas eu sabia que seria capaz de ser feliz, de me encontrar, de deixar essa solidão de não pertencer para trás. Eu sentia ter em minhas mãos todo o sentimento do mundo, um presente que eu não tinha a quem dar.

            Sabe, eu tentei viver nesse mundo, me adaptei aos conformes exigidos. Tinha minha rotina: A voz do locutor de rádio me acorda às 6h15 da manhã, todos os dias, me levanto devagar, procuro meus óculos, preciso deles para me olhar nesse espelho que parece me desnudar. Lavo o rosto, me olho, todos os dias reparo em como minha narina esquerda estraga a simetria do meu rosto, em como meus lábios finos desejam desesperados. Escovar os dentes me toma pelo menos cinco minutos, tento seguir o conselho do meu dentista, estranho como essa pessoa se tornou uma referência e estranho como cinco minutos parecem uma eternidade. Eu não abro mão do meu café da manhã, mas aprendi a torná-lo mais prático ao longo dos anos. No fundo é isso que a vida me ensinou: a ser prático. Enquanto meu pão pré-assado assa, minha cafeteira passa meu café e eu me visto, porém a imagem refletida me mostra o quanto este traje não me pertence.

            7h15 eu saio de casa, entro no meu carro, um desses compactos econômicos com feição de esportivo. Preto, é claro. Pelo menos meu carro pertencia ao trânsito, aqueles 40 minutos para percorrer 4 km.
            Todos os dias eu chego cinco minutos antes do horário que deveria começar a trabalhar, só para poder sentir que esses mesmos cinco minutos me pertenciam, ilusão de todas as manhãs.

            Ouvi dizer uma vez que desde o útero já sentimos o ambiente ao redor, por motivos que aqui não importam, eu não queria sentir esse mundo, esse escritório em que eu passo pelo menos dez horas de cada dia meu, com seu cheiro de carpete escovado, café mal passado, papel picado e ganância.

            Já passa da hora da janta quando entro no meu carro novamente, cozinhar não é uma opção, não é prático, então passo na lanchonete na esquina de casa e depois volto para o meu apartamento, para os 20 minutos que vão me pertencer. Sentir a água escorrendo pelo meu corpo e com ela levando o sentimento de mundo daquele dia, porém a minha imagem nu me surpreende: esse corpo não me pertence.

            Antes de dormir eu entrego minha mente a esses programas idiotas que passam na televisão e meia noite me parece um bom horário para entregá-la ao sono.

            No dia seguinte tudo igual: o rádio, os óculos, meu rosto, meus dentes, meu pão, meu traje, meu café, meu carro, o trânsito, meus minutos, o escritório, a ganância, meu carro, meu lanche, meu banho, minha alienação, meu sono.

            Até que um dia eu resolvi me desnudar desse mundo, para deixar de me sentir com se fosse um Frankenstein perdido num shopping (aliás, eu odeio shoppings). Resolvi sair mais cedo do escritório e passar o pôr do sol no banco daquele parque, porque eu era capaz, sabia que eu era capaz. E a cada dia ele me surpreendia, me sugeria uma certa felicidade, solitária porém, que chegava a ser patética, mas me pertencia.


            Num desses dias o pôr do sol foi acompanhado por um vestido florido, um olhar profundo, um sorriso tímido e uma covinha assimétrica. Comecei a sentir que talvez eu tenha subestimado esse mundo.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Sharmuta

Ele era legal, gostava de pimenta, votou no PT, mas escondia, tinha a destreza de tirar as meias sem usar as mãos e de abrir a porta com o cotovelo. Virava doses antes de ir pro serviço. É paradoxo um gauche ter destreza. Conheceu a garota e disse que era animador de festas. Era uma piada, uma brincadeira, um trabalho temporário desses que duram uma vida inteira. Fácil demais e bem pago o suficiente. Virava doses antes de ir. Ela disse que ia ter uma festa, convidou-o como animador e amigo, não teria cachê nem nada, só se ele quisesse, se achasse que dava. Ele nunca soube dizer não pra garotas. Apaixonou-se por ela, claro, como sempre. Ahh, paixões instantâneas, das tantas coisas que têm cheiro melhor que o gosto. Virava shots antes. O mal entendido, pessoas constrangidas, um rosto ruborizado, as roupas abandonadas no chão, pedidos de desculpa, o grito-riso-fungada daquela moça, a culpada, desvirtuada. Louca, se quiser chamar assim. Foi como ele a chamou pra explicar o caso. A barulheira da música que alguém desligou. A procura pelo culpado e a delícia maldosa da certeza que não fui eu quem cometeu o erro. A imensa, desoladora, arrebatadora culpa de quem pagou pra alguém tirar a roupa na frente de tantos cegos. Um mal estar na civilização. Um corpo que cai, que deforma e se transforma e descamba pro bizarro, pro inaceitável, pro grotesco. E pra vergonha. E num pedido de desculpas singelo, uma memória a ser pra sempre motivo de embaraço numa mente já há muito se escondente. Virava doses. E odiou cada pessoa que olhou pro seu corpo com horror, do mesmo jeito que ele se via quando parava na porta, um minuto de preparação e se punha a se dispor de suas roupas. À barulheira da música do auto falante portátil. E dançava a coreografia das putas, e sabia que ia acelerar o coração de alguém de medo, culpa, tesão, susto, sujeira, de tão perto que ficava. Dessa vez, o coração acelerado foi o seu. Saiu fugido de véus, páginas sagradas, o riso louco da moça desvirtuada e gritos de sharmuta. Virava.



E a proposta dada pelo Eduardo era: "Um stripper masculino que acidentalmente foi contratado para uma festa muçulmana."

3ª proposta: fantasias

Escolhemos uns para os outros situações e fantasias. Que tipo de histórias poderiam inspirar?

O Vazio

“Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparato de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente tocamos rock’n roll.

“Procuramos satisfazer com o que temos a oferecer. Não são palcos, equalizadores, efeitos especiais que vão nos fazer lendas, e sim fazer música de verdade. Transformar sensações, sentimentos, fases, acontecimentos em letras e essas letras em lenda”.

Última frase daquela entrevista irritante, igual a todas. Curiosidades inúteis, respostas vazias. Ao sair do estúdio não se despediu dos companheiros da banda. Já não conversavam há algum tempo. Ego, dinheiro, fama. Isso era o importante para todos eles. E há quem pense que para ser um cantor você não precisa saber atuar.

Entrou em seu carro de última geração. Chegou a sua mansão. Vazio. Sempre vazio. Correu atrás de seus sonhos, atingiu seus objetivos. Por que isso não é suficiente? Nunca é suficiente.

Tentou tudo que o dinheiro pode comprar. O que melhor?, podia pensar às vezes. Sexo. Drogas. Rock’n roll. Vazio, sempre vazio.

Tentou então colocar seus sentimentos em suas músicas, mas não foram bem aceitas. Muito sombrias, eles disseram. Nem sabiam que esse era ele. Simplesmente ele. Então fez o que pediram, escreveu sobre o que queriam, ganhou mais dinheiro, mais fama. Vazio, sempre vazio.

Tentou ajudar as pessoas. Algo para ocupar sua cabeça. Organizou eventos, participou de conferências, visitou países pobres. Chegou a pensar que isso era algo substancial em sua vida. Já que não podia ser mudada, porque não tentar mudar a dos outros?

Abriu o jornal, viu uma foto sua ao lado de crianças desnutridas, passou o olho pela matéria e algo o fez parar:

“Essa mudança é uma visão tacanha da formação de um diplomata.”

Nada era suficiente. Nunca foi. Nem para ele, nem para os outros. Em seu quarto decidiu abraçar o vazio. Sentiu o frio do cano em sua cabeça, não pensava em nada. Não sentia nada. Nada.


Gatilho. Vazio, sempre vazio.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Miriam

Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparato de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente tocamos rock n' roll. Não sei o que ela esperava de mim, uma declaração, eu dizer que aquela música pra ela, mas não era, nunca foi, nem dela nem pra nenhuma das 

outras pra quem eu sugeri isso. Um homem tem que saber manejar essa situação toda de palco. É diplomático: dividir, agradar, apaziguar, esconder (nunca mentir). E as gurias pulam mesmo em cima de você, pelo menos estão pulando desde que a banda começou a fazer um sucesso, ou coisa parecida. A gente toca nos bares, 


começamos com covers e há dois anos estamos com umas músicas próprias. No começo era bebedeira depois de todo show, meu pai ficava puto que eu chegava de manhã em dia de faculdade, mas tava dando pra começar a ganhar uma grana então ele não podia nem dizer que ia cortar mesada, não ia fazer diferença. Coitado do 


véio. Mas nem sempre eu tava bebendo a noite inteira. Conheci umas meninas no caminho... Eu realmente me sentia um diplomata ou alguma porra assim tendo que lidar com todas. Viviam tentando me zuar colocando coisa no facebook, marcando foto em instagram ou o caralho a quatro. A Mirian nunca fez nada assim. Ela falava de 


blues da piedade, tipo, não, não sei o que significava. Não sei o que ela esperava quando me olhava daquele jeito. Era uma doidinha, acho que queria uma declaração de amor. Teve outras, claro, tipo a Amanda, que fazia um trabalho com a boca fora de sério, mas não era de falar muito, graças a Deus porque era burra feito uma 


porta. Tinha uns peitos muito respeitáveis, também. Nunca exigiu nada, era um disque-boquete. Depois começou a namorar um outro cara, um nerd-banana. Parece que ta estudando psicologia. Numa dessas ela consegue superar a fase oral. Infame. A Miriam sempre foi mais do tipo beijinhos do que chupadas fenomenais. Ela me 


deixava dormir na casa dela. Me deixava chegar lá quando eu quisesse, não importava a hora. Mas ela nem sempre fazia sexo comigo, às vezes me mandava até dormir no sofá. Ela dizia que sabia quando eu vinha da cama de alguma outra, e, por mais que eu dissesse que ela era única, ela estava sempre certa. Mais de uma vez 


eu broxei com ela, de chapado. Com a Lu eu nunca broxei, o que me conferia alguma certeza maior da minha masculinidade. A Lu era assustadora na cama, gemia mais alto que gata no cio, a vadia. O vizinho de cima era um coitado, vivia batendo um cabo de vassoura no chão pra tentar chamar a atenção. Às vezes me enchia o saco 


dos tapas dela. A Miriam era mais meiga, carinhosa. Depois, quando me mudei prum apê com os piás até preparei o café-da-manhã pra ela, um dia, antes de pedir pra ela ir embora. E ela me olhava de um jeito que fazia eu me sentir um merda toda vez que saía, porque ela sorria com a porra do canto da boca e me olhava 


como se eu fosse um cachorrinho ou coisa parecida. Como se estivesse com dó de mim. Era de fuder, mas nunca consegui não chamar ela em casa quando as outras não deram certo. Eu nunca vi ela chorando, mas eu lembro de ter desviado os olhos mais de uma vez, de ter ido buscar uma bera quando sabia que ela tinha alguma coisa 


pra falar. É fácil. E é fácil encarar uma gatinha do palco. A Miriam parou de ir aos shows depois de um tempo, mas cantava todas as músicas no começo. Ela e as amiguinhas dela, um grupinho desses de arrasar os caras. Uma delas, a Jéssica se esfregou em mim até faturar. Aguentei o quanto pude, mas mulheres de coxas grossas 


são o meu fraco. No banheiro, mais ainda. A Gabi veio com elas uma vez. E daí durou mais que umas semanas, dormia lá em casa todo dia, chapávamos e comíamos pizza o dia inteiro. Perdi um show por causa dela, os caras quiseram me matar. Nunca soube onde ela morava, se não tinha que dar satisfação pra ninguém. Mas um dia me 


enchi o saco que a calcinha dela tava fedendo, fedendo, no duro, no meu armário. A Miriam era sempre muito limpa, me obrigava a tomar banho antes de deitar na cama dela e vivia dizendo pra eu trocar os meus lençóis. Às vezes até trazia uns limpos. Me enchia o saco quando eu cheirava, também. Parei por causa dela, por um tempo. 


Depois da Gabi fiquei uma cara sem falar com a Miriam, mas um dia ela me atendeu de volta, quase derrubei o celular com a surpresa, tava meio que ligando só pelo hábito. Daí eu pirei e, num impulso, apresentei a guria pra minha mãe, um dia. A mãe morava em outra cidade, tava vindo me visitar e acabamos indo almoçar os três. E foi 


massa pra caralho, na real. A mãe ficou felizaça. A Miriam é mesmo meiga pra cacete. Fazia uma semanas que eu não falava com ela, foi um período meio foda pra banda e acabei cheirando um pouco demais com um outro brother ai. Nem tava com outra guria, esse negócio de diplomacia dá no saco de vez em quando. E dai a vadia 


me liga pra dizer agora que conheceu um cara, um desses pagadores de impostos, fracassado, tem até nome de perdedor. Até já me esqueci da porra do nome de tão loser que era. Foda-se. To de saco cheio de mãe e brothers dizendo que eu devia ir atrás dela. Mas já fui atrás dela a vida inteira, não tenho culpa se ela quer dar 


pra esse novo cara. Dizem que eu tenho que ficar de boa, crescer, porra, que que é crescer? Acho isso uma besteira completa. Eu curto a Mirian e coisa e tal mas essa mudança que eles querem é uma visão tacanha da formação de um diplomata.

Intenso e vivo, rock’n roll



"Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparato de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente tocamos rock n' roll."

Era a resposta que circulava em meu pensamento, nessa linguagem torta de quem não diz ao certo mas também não mente.

Um dia pousei em um planeta azul, majoritariamente habitado com seres que se chamavam de humanos. Falavam. E diziam ter a vantagem da consciencia, da percepção de si mesmos. Curioso com tal sabedoria, perguntei então o que eram e o que faziam.

Uma, duas, tres respostas, e a dúvida crescia. Quanto mais eu indagava mais respostas obtinha, ouvia todo tipo de frase e meu repertório crescia. Mas a dúvida continuava, ou até mesmo aumentava. Ainda insatisfeito, resolvi observar.

Passei por um cemitério. Aprendi a palavra saudade. Via pessoas falando sobre a vida e sobre a morte, via pessoas falando sozinhas. Sussurrei pra mim mesmo aquelas frases bonitas ditas vacilantes, confusas de onde ir. Descobri que as palavras tem direção.

Visitei praias e vi meninas estiradas na areia. Se alimentavam de luz. Percebi que os tais humanos são completamente dependentes do sol, que em resposta, brilha periódicamente no céu, iluminando fluentemente e quase democráticamante cada pedacinho do planeta.

Curioso e cheio de dúvidas fiquei afoito pra saber mais. Maravilhado com a dita consciencia queria entender, como pode um homem inferir que vive, sem saber pra que? Chegando mais perto, me embaralhei, e quanto mais entranhado na vida ao redor, um silencio de perguntas tomava lugar. Fui virando rotina e a vida foi se limitando ao alcance da vista.

Por onde passava, aprendia novas cores, cheirei e senti sabores. Cantei junto, e me deliciei com as palavras em cadência, ritmando em sequência. Mas não falamos muito entre as músicas.

Percebi que quando a beleza transborda, um silêncio se instaura. Estar vivo já basta, intenso e vivo, rock’n roll. E por isso a fala torta, que encanta e silencia. E assim fui me acalmando e as perguntas cessando. Saber o que eu já sabia parecia ser suficiente para estar ali.

Desenvolvi particular paixão pela fala. As linguas e linguagens me encantavam! Podia passar dias passeando pelas ruas, colecionando frases soltas. Tudo guardado e catalogado esperando um dia ser usado. Me daparar com uma situação e soltar uma frase orgulhoso. E como uma criança, ouço e repito, altivo e pomposo:
"Essa mudança é uma visão tacanha da formação de um diplomata.”

Busca

“Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparto de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente tocamos Rock’n Roll”. Rodrigo ensaiava novamente para uma entrevista imaginária enquanto rotineiramente abria a torneira e colocava a pasta em sua escova de dente. Lavou o rosto e olhou-se, deu então aquele sorriso de despedida para finalizar a entrevista com seu espelho.

            Era 1998 e apesar dos inúmeros depoimentos para o espelho, Rodrigo nem mesmo participava de uma banda. Ao longo dos seus anos de colégio se preparou de todas as maneiras que acreditava serem necessárias para ser membro de uma banda de Rock. Começou com as coleções de CDs e camisetas, se aprofundou no conhecimento das principais bandas que queria ter como referência.

            A decisão de qual instrumento seria o seu não foi fácil. Queria se destacar, ser diferente, ser único, descartou de primeira o instrumento mais óbvio. Partiu então para a jornada de ser um baterista. Conseguiu convencer sua mãe a lhe dar uma bateria de aniversário, mas o sonho infelizmente não durou muito. Depois de 3 meses de muita paciência, por parte dos outros moradores da casa, é claro, Rodrigo perdeu sua bateria para o que sua mãe chamou de “silêncio harmônico”.

            99 estava quase chegando ao fim, Rodrigo, com o dinheiro que juntou durante o último ano, comprou um baixo. Tentou explorar e compreender aquelas cordas e suas combinações, mas passado algum tempo Rodrigo percebeu que seu som não cumpria uma de suas principais funções: a ligação entre outros instrumentos. Ao final do ano 2000 ele ainda não tinha se encontrado em nenhuma banda. Acontece que Rodrigo temia mais do que tudo o risco do erro. Depois de todos esses anos não havia conseguido se entregar verdadeiramente e se arriscar a procurar um grupo. Trocou o baixo pela guitarra. Tocava horas, ocupava o seu tempo só, acompanhado pelo seu som.

            Em 2005 se formou em física, o baixo e a guitarra enfeitavam a parede da sala no apartamento em que morava sozinho. Um violão artesanal lhe fazia companhia, passara do rock para o violão clássico. Seus acordes se manifestavam como o mais puro sentimento que guardava para si.


            E num desses dias de calor melancólico no verão de 2012, Rodrigo tocava na varanda, como se quisesse tocar para a cidade, sem precisar encarar seu medo de se arriscar. Parou no meio da música: “que estúpido que eu sou” pensou. Entrou, ligou a TV como se esperasse uma resposta de quem aparecesse na tela. “Essa mudança é mais uma visão tacanha da formação de um diplomata” foi sua resposta. Desligou a TV, foi dormir. Se apenas ele soubesse das lágrimas que fez derramar alguns andares abaixo...

2ª Proposta

Nesse segundo encontro definimos o desafio de criar um texto em que as frases de início e fim já estivessem pré determinadas. Escolhidas aleatoriamente na internet os textos deveriam começar com a seguinte quote:

"Nós não fazemos exatamente shows, mas apresentações. Nosso aparato de palco se resume a algumas luzes. Não falamos muito entre as músicas. Simplesmente fazemos Rock'n Roll"

E o texto deveria se encerrar com:

"Essa mudança é mais uma visão tacanha da formação de um diplomata" 

E como não é inesperado no mundo da escrita, das ideias e dos pensamentos cada texto conseguiu ter o seu  tom peculiar. 

Mais um


Mais uma noite. Mais uma manhã. Mais uma cama. Mais um outro.

Está acordada a cerca de uma hora, mas não se levantou ainda. Aproveita os momentos em uma cama confortável, em um lençol limpo, momento de falso prazer, ela sabe que aquele instante, no qual o dinheiro é entregue, qualquer magia está destruída. Afinal, ela é só mais uma outra.

Ah, se ele soubesse... se ele soubesse que todas as vezes que quem aparece é ele, que quem está disposto a aproveitar de sua companhia é ele. A quem ela está enganando? Não é de sua companhia que ele veio atrás. Afinal de contas, porque olharia para ela, por que pensaria nela? Ele já tem o que ela mais deseja. Família. Casa. Estabilidade.

Mas quem sabe um dia, quem sabe um dia aquilo que a inocência que existia em seu interior insistia em acreditar aconteça. Contos de fadas? Príncipes encantados? Por que não?! Por que não aproveitar do pouco que restou, do pouco de sonhos e imaginação em seu interior.

Então ele acorda. Paga. Se despede. Como sempre sem beijo, como sempre sem toque. Como sempre sem olhar.

Mas ela sabe que ele vai voltar, ele sempre volta. E com ele, o pouco de esperança, um pouco de desejo de viver aquilo que lhe foi tirado. Aquilo que ela nunca teve a real chance de aproveitar.

Mas enquanto isso não acontece...

Mais uma noite. Mais uma manhã. Mais uma cama. Mais um outro.