Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Dez-encontros


Essa é uma história sobre pessoas reais que não se conhecem a não ser por uma abstração de distância.
Olhou pra ele de longe, no bar, achou bonitinho, os óculos escondendo um estrabismo muito discreto, barba, um maxilar geométrico. Uma cerveja atrás da outra, de papo com outro cara. Ela reparou como a luz amarela contornava os cantos, lambia a ponta da orelha, amassava a camiseta e brilhava nos rebites do cinto. Uma singela sugestão pra ela que já mordia o lábio, decidida.

Foi falar com ele, sabia que o mundo nunca se move pro lado contrário.

Oito encontros e deu. E ela soube que ele era virgem e gostou ainda muito mais dele por isso. Algum tipo de pureza que ela tinha perdido há muito tempo, talvez nunca tenha tido, ela que dou quando dá, auto-entrega gratuita. Quantos foram? Dez, doze?

Hoje em dia ela não sabe disso e ninguém nunca quis contar a ela, mas se matou antes do terceiro de nove encontros. Derrubou outras lágrimas no quinto, depois das primeiras caírem no cesto. Deu de primeira, apaixonou-se num segundo e descansou no sétimo. No quarto, permitiu-se parar de contar. Às nove não era mais o tipo dele.

Ele argumentou que o tempo é o que impede tudo de acontecer agora. Ela disse que não se importaria. Ela queria que ele a achasse legal. Ele sempre achou.

Ela apontou para a carteira e perguntou se ele queria dividir a conta. Ele comprou uma bebida e perguntou se ela queria dividir o copo. Ela apontou a barra de chocolate e perguntou se ele queria dividir a culpa. Ele abriu a porta do quarto e perguntou se ela queria dividir a cama.

Era um jogo de ofereceres, quem aceitava mais. Ela ofereceu tudo de si e o que tinha passado, com a destreza do prazer que só o sofrimento dá. Como secretamente todos gostam do cheiro da própria merda.


No sim, não se entenderam. Ela era fast forward, ele era slow motion. Ela pulava capítulos, ele virava a página. Ela voltava, ele pausava. Ela ia, ele parava. Ele investia, ela fechava. Ela sorria, brincava. Ele sentia, suava. Saíram do compasso, a nota final ficou uma semifusa fora da batida. Fuderam o timing, num tempo de quatro.

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