Pegou sua filha no colo, finalmente tão serena. Os olhos
fechados e a respiração tranquila. Seu pequeno corpinho exausto, adormecido,
sem nem sinal da aflição que acabava de vencer. A vontade era de avisar,
alertar, explicar. Tudo junto numa canção de ninar.
Dizer que a noite pode ganhar, não tem que ter medo,
Mostrar que amanhã existe um novo despertar.
Dizer que ela pode demorar e até sustar,
Porque não adianta chegar na frente se ninguém vai estar lá.
Queria poder pedir pra ela ter calma, e não ficar
preocupada,
Porque se veio até aqui, é porque é onde deve estar.
Que é o caminho que importa e não aonde ele vai dar.
Queria fazer passar essa aflição familiar.
Queria fechar os olhos e adormecer também,
Ter o sono pesado de quando dorme um neném.
Queria ensinar, mesmo sem compreender,
Que não é a calma o que nos faz mover.
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Tão destemida e curiosa
Mas tem medo de careta
Botou a menina no berço e foi se deitar, sussurrando pra si
mesma uma canção de ninar.
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