Abriu os olhos...fechou-os novamente.
Ao passo que sua respiração se tornava mais profunda, também
seu piscar de olhos se tornava mais demorado. Ela gostava de brincar com essa
sensação, tinha então todo o poder de decisão sobre o que gostaria de ver ou não.
Olhava, via, reparava e fechava os olhos mais uma vez.
De olhos abertos estava parada, sentada em frente àquela
construção simples, portão, porta, janela. Só faltava o antigo balanço. De
olhos fechados dançava com toda sua emoção guardada, seus movimentos traduziam
suas palavras não ditas, dançava no silêncio.
Abriu os olhos, a casa ainda estava ali, fechou-os e lhe
veio na mente a imagem do primeiro dia em que o viu acordar, um sorriso tímido
colorido pela luz alaranjada do amanhecer, sorriu também.
Abriu os olhos, um cachorro sentado na parte do muro banhada
pelo sol. Fechou os olhos. Ouviu risadas, estava escuro, por trás das toalhas
penduradas na cama de repente apareceu o rosto de sua mãe chamando-a para o
jantar, seu esconderijo tinha sido descoberto.
Abriu os olhos, o sol a fez lacrimejar. Fechou os olhos. Um
papel branco estava à sua frente, sentiu a melancolia daquele momento, não
sabia o que escrever, não pertencia àquele mundo, não sabia aonde ir,
simplesmente não sabia.
Abriu os olhos, a janela do vizinho estava aberta. Fechou os
olhos. Caminhava no parque e se encontrou novamente com a árvore pela qual se
apaixonou, filmou com a mente a dança dos galhos com o vento.
Abriu os olhos, alguém abrira a porta e um menino andava de
triciclo no quintal. Fechou. Viu o dia em que deixou aquela casa. Abriu os
olhos, a casa. Fechou os olhos e se viu na frente do homem que amava, abriu os
olhos, a casa, fechou os olhos e com uma lágrima que lhe escorria se viu se
despedir de seu pai, abriu os olhos, a casa, as lágrimas.
Fechou os olhos.
Sorriu. Viu seu filho apertar sua mão. Abriu os olhos, a
casa.
Se levantou, andou, passo a passo. Simples, tudo era muito
simples
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