Nós cinco e nossas quartas

Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Canção de Ninar




Pegou sua filha no colo, finalmente tão serena. Os olhos fechados e a respiração tranquila. Seu pequeno corpinho exausto, adormecido, sem nem sinal da aflição que acabava de vencer. A vontade era de avisar, alertar, explicar. Tudo junto numa canção de ninar.

Dizer que a noite pode ganhar, não tem que ter medo,
Mostrar que amanhã existe um novo despertar.
Dizer que ela pode demorar e até sustar,
Porque não adianta chegar na frente se ninguém vai estar lá.

Queria poder pedir pra ela ter calma, e não ficar preocupada,
Porque se veio até aqui, é porque é onde deve estar.
Que é o caminho que importa e não aonde ele vai dar.
Queria fazer passar essa aflição familiar.

Queria fechar os olhos e adormecer também,
Ter o sono pesado de quando dorme um neném.
Queria ensinar, mesmo sem compreender,
Que não é a calma o que nos faz mover.

Boi, boi, boi, boi da cara preta
Tão destemida e curiosa
Mas tem medo de careta


Botou a menina no berço e foi se deitar, sussurrando pra si mesma uma canção de ninar.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Dez-encontros


Essa é uma história sobre pessoas reais que não se conhecem a não ser por uma abstração de distância.
Olhou pra ele de longe, no bar, achou bonitinho, os óculos escondendo um estrabismo muito discreto, barba, um maxilar geométrico. Uma cerveja atrás da outra, de papo com outro cara. Ela reparou como a luz amarela contornava os cantos, lambia a ponta da orelha, amassava a camiseta e brilhava nos rebites do cinto. Uma singela sugestão pra ela que já mordia o lábio, decidida.

Foi falar com ele, sabia que o mundo nunca se move pro lado contrário.

Oito encontros e deu. E ela soube que ele era virgem e gostou ainda muito mais dele por isso. Algum tipo de pureza que ela tinha perdido há muito tempo, talvez nunca tenha tido, ela que dou quando dá, auto-entrega gratuita. Quantos foram? Dez, doze?

Hoje em dia ela não sabe disso e ninguém nunca quis contar a ela, mas se matou antes do terceiro de nove encontros. Derrubou outras lágrimas no quinto, depois das primeiras caírem no cesto. Deu de primeira, apaixonou-se num segundo e descansou no sétimo. No quarto, permitiu-se parar de contar. Às nove não era mais o tipo dele.

Ele argumentou que o tempo é o que impede tudo de acontecer agora. Ela disse que não se importaria. Ela queria que ele a achasse legal. Ele sempre achou.

Ela apontou para a carteira e perguntou se ele queria dividir a conta. Ele comprou uma bebida e perguntou se ela queria dividir o copo. Ela apontou a barra de chocolate e perguntou se ele queria dividir a culpa. Ele abriu a porta do quarto e perguntou se ela queria dividir a cama.

Era um jogo de ofereceres, quem aceitava mais. Ela ofereceu tudo de si e o que tinha passado, com a destreza do prazer que só o sofrimento dá. Como secretamente todos gostam do cheiro da própria merda.


No sim, não se entenderam. Ela era fast forward, ele era slow motion. Ela pulava capítulos, ele virava a página. Ela voltava, ele pausava. Ela ia, ele parava. Ele investia, ela fechava. Ela sorria, brincava. Ele sentia, suava. Saíram do compasso, a nota final ficou uma semifusa fora da batida. Fuderam o timing, num tempo de quatro.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Abriu os olhos




Abriu os olhos...fechou-os novamente.

Ao passo que sua respiração se tornava mais profunda, também seu piscar de olhos se tornava mais demorado. Ela gostava de brincar com essa sensação, tinha então todo o poder de decisão sobre o que gostaria de ver ou não. Olhava, via, reparava e fechava os olhos mais uma vez.

De olhos abertos estava parada, sentada em frente àquela construção simples, portão, porta, janela. Só faltava o antigo balanço. De olhos fechados dançava com toda sua emoção guardada, seus movimentos traduziam suas palavras não ditas, dançava no silêncio.

Abriu os olhos, a casa ainda estava ali, fechou-os e lhe veio na mente a imagem do primeiro dia em que o viu acordar, um sorriso tímido colorido pela luz alaranjada do amanhecer, sorriu também.

Abriu os olhos, um cachorro sentado na parte do muro banhada pelo sol. Fechou os olhos. Ouviu risadas, estava escuro, por trás das toalhas penduradas na cama de repente apareceu o rosto de sua mãe chamando-a para o jantar, seu esconderijo tinha sido descoberto.

Abriu os olhos, o sol a fez lacrimejar. Fechou os olhos. Um papel branco estava à sua frente, sentiu a melancolia daquele momento, não sabia o que escrever, não pertencia àquele mundo, não sabia aonde ir, simplesmente não sabia.

Abriu os olhos, a janela do vizinho estava aberta. Fechou os olhos. Caminhava no parque e se encontrou novamente com a árvore pela qual se apaixonou, filmou com a mente a dança dos galhos com o vento.

Abriu os olhos, alguém abrira a porta e um menino andava de triciclo no quintal. Fechou. Viu o dia em que deixou aquela casa. Abriu os olhos, a casa. Fechou os olhos e se viu na frente do homem que amava, abriu os olhos, a casa, fechou os olhos e com uma lágrima que lhe escorria se viu se despedir de seu pai, abriu os olhos, a casa, as lágrimas.

Fechou os olhos.

Sorriu. Viu seu filho apertar sua mão. Abriu os olhos, a casa.


Se levantou, andou, passo a passo. Simples, tudo era muito simples

Música, Maestro!

1ª Proposta

Após um jantar indiano maravilhoso (créditos ao roommate Tim), um vinhozinho e um papo jogado fora, decidimos a primeira proposta do projeto, e nada melhor do que música! Após um sorteio estilo "amigo oculto", presenteamos-nos com uma música tema. A idéia foi produzir um texto inspirado na canção, seja na letra ou na sonoridade e o resultado foi bem interessante, dá uma conferida!





Gostou da ideia? Escreva o seu texto e mande pra gente junto com a música escolhida! Vamos adorar ouvir.