Cinco pessoas unidas pelo acaso ou não, compartilhando a experiência de se encontrar em um espaço inusitado, de vivenciar os 10 000 Km que os separa de suas casas sob uma outra ótica. As palavras...a escrita!
Pegou sua filha no colo, finalmente tão serena. Os olhos
fechados e a respiração tranquila. Seu pequeno corpinho exausto, adormecido,
sem nem sinal da aflição que acabava de vencer. A vontade era de avisar,
alertar, explicar. Tudo junto numa canção de ninar.
Dizer que a noite pode ganhar, não tem que ter medo,
Mostrar que amanhã existe um novo despertar.
Dizer que ela pode demorar e até sustar,
Porque não adianta chegar na frente se ninguém vai estar lá.
Queria poder pedir pra ela ter calma, e não ficar
preocupada,
Porque se veio até aqui, é porque é onde deve estar.
Que é o caminho que importa e não aonde ele vai dar.
Queria fazer passar essa aflição familiar.
Queria fechar os olhos e adormecer também,
Ter o sono pesado de quando dorme um neném.
Queria ensinar, mesmo sem compreender,
Que não é a calma o que nos faz mover.
Boi, boi, boi, boi da cara preta
Tão destemida e curiosa
Mas tem medo de careta
Botou a menina no berço e foi se deitar, sussurrando pra si
mesma uma canção de ninar.
Essa é uma história sobre pessoas reais que não se conhecem
a não ser por uma abstração de distância.
Olhou pra ele de longe, no bar, achou bonitinho, os óculos
escondendo um estrabismo muito discreto, barba, um maxilar geométrico. Uma
cerveja atrás da outra, de papo com outro cara. Ela reparou como a luz amarela
contornava os cantos, lambia a ponta da orelha, amassava a camiseta e brilhava
nos rebites do cinto. Uma singela sugestão pra ela que já mordia o lábio,
decidida.
Foi falar com ele, sabia que o mundo nunca se move pro lado
contrário.
Oito encontros e deu. E ela soube que ele era virgem e
gostou ainda muito mais dele por isso. Algum tipo de pureza que ela tinha
perdido há muito tempo, talvez nunca tenha tido, ela que dou quando dá,
auto-entrega gratuita. Quantos foram? Dez, doze?
Hoje em dia ela não sabe disso e ninguém nunca quis contar a
ela, mas se matou antes do terceiro de nove encontros. Derrubou outras lágrimas
no quinto, depois das primeiras caírem no cesto. Deu de primeira, apaixonou-se
num segundo e descansou no sétimo. No quarto, permitiu-se parar de contar. Às
nove não era mais o tipo dele.
Ele argumentou que o tempo é o que impede tudo de acontecer
agora. Ela disse que não se importaria. Ela queria que ele a achasse legal. Ele
sempre achou.
Ela apontou para a carteira e perguntou se ele queria
dividir a conta. Ele comprou uma bebida e perguntou se ela queria dividir o
copo. Ela apontou a barra de chocolate e perguntou se ele queria dividir a
culpa. Ele abriu a porta do quarto e perguntou se ela queria dividir a cama.
Era um jogo de ofereceres, quem aceitava mais. Ela ofereceu
tudo de si e o que tinha passado, com a destreza do prazer que só o sofrimento
dá. Como secretamente todos gostam do cheiro da própria merda.
No sim, não se entenderam. Ela era fast forward, ele era slow
motion. Ela pulava capítulos, ele virava a página. Ela voltava, ele
pausava. Ela ia, ele parava. Ele investia, ela fechava. Ela sorria, brincava.
Ele sentia, suava. Saíram do compasso, a nota final ficou uma semifusa fora da
batida. Fuderam o timing, num tempo de quatro.